domingo, 25 de janeiro de 2009

Luto,porque é necessário dar um sentido à perda..


A palavra luto quer dizer “dor” causada pela morte de alguém.
“Fazer o seu luto” quer dizer literalmente “passar através da sua dor”.
“A resolução do luto” é o fenómeno que corresponde à nossa capacidade de “reparação da ferida” que a perda de alguém ou algo causa em nós…corresponde à transformação de vivências em memórias.
Porque nascemos fruto de relações, mais ou menos intensas, mais ou menos afectuosas, somos por natureza um ser de e para a relação…porque as emoções são o sustento das interacções e da relação, o homem é por consequência um ser que cria ligações/laços com as pessoas e as coisas. Sem ligações, sem afectividade, a vida não seria possível. É por isso que nós criamos com os seres queridos relações que são laços psicológicos e espirituais. Esses laços são de intensidade variável de acordo com o tipo de investimento afectivo em relação à outra pessoa.
O luto é assim um acontecimento normal e inevitável na vida de um indivíduo, e não uma doença.
Contudo, a negação do sofrimento e da morte na nossa sociedade impedem o desenrolar normal da resolução do luto. A dissimulação e o recalcamento aos quais são impelidas as pessoas em luto são factores muito importantes de “stress” e até mesmo de doença.
A vida é uma série ininterrupta de ligações e de separações, de mortes e de nascimentos. É preciso estar sempre preparado para morrer para uma situação e nascer para outra. É este o preço da vida. O luto faz, por isso, parte da vida. Poderemos mesmo dizer que é um elemento fundador da vida.
No entanto, e apesar de o luto ser um trabalho individual, toda a família e comunidade devem participar neste processo de “resolução do luto”, não omitindo o facto, nem fazendo de “conta que nada aconteceu, como sendo um tabu”, mas auxiliando as pessoas enlutadas a re(construir) um modelo de relação diferente…em que o físico se transforma em memórias! A vivência de um luto, faz-nos sempre pensar nas nossas próprias perdas e isso pode de algum modo causar-nos dor, sofrimento e consequentemente, afastar-nos de situações que o evoquem.
A negação social da morte e do sofrimento, tem repercussões imensas sobre as pessoas e comunidades em situação de perda. As maioria das pessoas desconhecem a importância de “ fazerem os seus lutos” e de consciente ou inconscientemente “percorrerem” as diferentes fases que este doloroso mas necessário percurso requer, para que se possa retomar a uma vida normal, porém transformada.
Se por qualquer razão, esta passagem pelas diferentes fases não se verificar, o individuo em luto fica “ agarrado” a uma relação que já não existe e não consegue construir uma vida verdadeira e diferente.
As causas destes insucessos são múltiplas:
falta dos rituais sociais que favorecem o decorrer do luto;
insuficiência de informações necessárias sobre a maneira da fazer o seu luto;
incapacidade de se exprimir emocionalmente, etc.
O luto é assim um tempo obrigatório entre duas fases da vida: aquela que
deixámos porque nos separámos do ente querido e aquela que virá depois
de o termos deixado partir e que será completamente diferente da precedente
Choque, corresponde ao momento imediato ao conhecimento do óbito e caracteriza-se por um entorpecimento da emotividade e das faculdades de percepção. No momento da notícia a pessoa fica anestesiada, e não é capaz de assimilar toda a reacção emocional da perda. O mundo abate-se à sua volta e a intensidade desta sensação é tanto maior quanto mais súbita e imprevisível for a morte.
Há pessoas que têm tendência a manter uma vida interior rica de ilusões em relação ao ser que partiu. Desenvolvem por vezes alucinações que se destinam a manter a sua presença.As resistências são maiores se a pessoa não o pôde ver, falar-lhe ou tocar-lhe. Alguns lutos não se conseguem fazer, simplesmente porque não se viu o corpo do defunto.
A negação tem por fim retardar a plena consciência da realidade do drama. Esta consciência, se for muito forte, pode levar a que o indivíduo perca o seu equilíbrio psíquico.A primeira forma de negação é de natureza cognitiva: nega-se a perda, a pessoa tenta esquecê-la ou não pensar nela.A segunda forma é de natureza emotiva: a expressão emotiva fica bloqueada, quer pela falta de meios para exprimir as suas emoções, quer pelo medo de se deixar afogar nelas.

A negação pode apresentar-se de várias formas: sobre actividade, substituição de quem partiu por um outro alguém, procura de um culpado, apresentação do ser perdido como sendo o melhor, recurso a drogas, perturbações psicossomáticas, etc.

Quando as defesas cedem e a realidade da perda se impõe, emerge todo um conjunto de emoções: ansiedade, impotência, tristeza, cólera, culpabilidade, um sentimento de libertação, as lamentações da plena consciência da perda.

“ Dar um sentido à perda…”

É preciso aceitá-lo, deixá-lo evoluir, vivê-lo: descobrir a chave. O período de reflexão necessário para este trabalho pede à pessoa que tenha confiança na sua sabedoria interior. O processo de luto e a sua resolução constituem um momento de crescimento e maturação pessoal e interior…em que nos deparamos com os nossos medos e angústias mais terrificas…por isso o confronto com o sofrimento dá-nos a possibilidade de elaborarmos os nossos receios e (re)avaliarmos o que queremos e fazemos com a nossa vida.
Um luto é considerado normal, quando a pessoa experiência sentimentos de tristeza, enfado, culpa, ansiedade, solidão, fadiga, impotência, choque, emancipação, alivio entre outras, durante um tempo suficiente para si, que lhe permite (r)elaborar a perda, e nesse sentido percorrer as diferentes fases do luto até conseguir finalmente atribuir um sentido à perda e assimilar as memórias sem dor nem sofrimento.
O Luto é considerado patológico ou complicado, quando existe uma relação contínua entre as reacções normais e anormais, isto é, não existe uma diferenciação e para além disso, o luto patológico varia em intensidade e duração face ao luto normal, assim como na presença ou ausência de uma conduta específica
A diversidade nos diferentes tipos de luto, remete-nos para a diversidade de reacções e de vivências do luto que cada pessoa apresenta. Nestas situações, mais do que em qualquer outra, cada pessoa deve ser olhada individualmente, com as suas características e necessidades, logo, devemos evitar reduzir o sofrimento dos outros e o nosso também ao que é “ normal e trivial”. Cada pessoa sente e vivências as perdas e os acontecimentos da vida de forma única e singular
O Acompanhamento Psicológico possibilita ajuda na elaboração do luto normal e patológico.
O melhor momento é uma semana depois, porque nessa altura todo o processo que envolve a cerimónia fúnebre e aspectos burocráticos estão tratados e a pessoa pode finalmente, parar e pensar no seu sofrimento e, vivenciar sem receios e sem medos a sua dor!
Muitas vezes, pelo ritmo de vida e por medo de se tornar cansativo para a restante família, a pessoa em luto acaba por esconder /camuflar o seu sofrimento, podendo esta situação conduzir a um luto patológico ou aparecendo este sofrimento sobre a forma de somatizações.

Existe alguém que pode ajudá-lo!
Não deixe que a dor tome conta de si!

3 comentários:

  1. Porque é que quando uma pessoa de quem nós gostamos morre nos temos de vestir de preto? Talvez para mostrar as outras pessoas que estamos a sofrer? Eu acho que é uma esputipez as pessoas se vestirem de preto para dizerem ESTOU A SOFRER! O que intereça é o que está dentro de nós e não o que nós tentamos transmitir. Certo?

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  2. Caro (a) leitora,
    em primeiro lugar obrigado pela sua questão/ opinião.
    Em relação ao seu comentário parece-me que você próprio (a)sente que temos de facto de nos vestir de preto quando alguém de quem gostamos morre! Talvez sinta esta pressão e seja esta a opinião dos que vivem ou convivem perto de si.
    Importa que percebamos um pouco donde vem esta questão do uso do preto:::
    O Uso do Preto após a morte de alguém querido, foi introduzido na nossa cultura há muitos, muitos anos atrás, como um forma de homenagem e respeito pela pessoa que morre. Faz parte de um ritual face à morte, do luto, de despedida da homenagem à pessoa que morre, assim como o fazem, outros rituais como o velório, a missa antes da partida,ou a cremação. Ou seja, face à morte, cada cultura, cada povo, tem um conjunto de rituais que têm por objectivo, homenagear a pessoa que morre. E isto varia muito de cultura para cultura. Por exemplo na Índia e noutros povos a côr a vestir após a morte é o Branco, a Cremação que só muito recentemente entrou em Portugal é praticada há séculos noutros países; em países árabes por exemplo, não põem flores nas campas, colocam pedras ( porque segundo eles as pedras são eternas e as flores morrem)...Bom isto tudo para lhe dizer que:
    O uso do preto, faz parte de um ritual introduzido há muitos anos na nossa cultura como forma de homenagem face à MORTE!
    PORÉM, as sociedades têm evoluído, mudado, e inevitavelmente as suas concepções e significados da morte têm mudado,o que faz com que o significado de certos rituais sejam questionados, tal como o leitor se Questiona! Hoje em dia o uso do preto já foi alterado, assim como por exemplo a Cremação que era proíbida até há poucos anos hoje em dia já é aceite!
    Agora e tentando ir directamente à sua questão
    penso que actualmente o que faz sentido é a pessoa sentir e homenagear a pessoa que parte da forma que tenha mais significado para si, que esteja de acordo com os seus valores e afectos.
    Concordo plenamente consigo quando refere que não temos de fazer só para mostrar aos outros, claro que não!
    Porém também julgo que é importante pensarmos e respeitarmos as pessoas, pela cultura que lhe foi transmitida, e porque se sentem de facto confortáveis,vestindo o preto, como forma de homenagear aquele que partiu, de expressar a sua tristeza.
    Em suma, penso que diante da morte, cada um de nós, já não tanto agarrado à tradição, tem os seus conceitos e representações da morte e que face à perda de alguém "querido" deve proceder da forma daquilo em que acredita e que para si tem significado, independente da opinião dos outros.
    Deve ser fiel aos seus próprios sentimentos e opiniões, com ou sem o uso do preto!
    Espero ter sido esclarecedora!

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  3. Olá, uma amiga minha perdeu o bebe que estava gerando no oitavo mês de gravidez. Hoje após um mês procurou ajuda psicológia, a profissional lhe informou que ela precisava deixar o filho partir, que ela precisa fazer o luto, que isso passa com o tempo, que não poderia fazer muita coisa a não ser ouvir e se quisesse voltar em uma próxima sessão poderia, mas que não poderia fazer muita coisa por ela. A atitude dessa psicóloga foi correta?
    Minha amiga precisava de uma ajuda para poder elaborar tudo e sinceramente, minha amiga ficou pior do que esta. Por favor o que ela deve fazer?

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