sábado, 14 de abril de 2018

Quando é que ansiedade se torna uma doença?




A ansiedade é uma emoção normal que existe em todos os seres humanos e de extrema importância para a sobrevivência.

É com a ansiedade que nós aprendemos a proteger-nos dos perigos fisicos e psicológicos.

Ficamos ansiosos quando antevemos o perigo de sermos assaltados, agredidos física ou verbalmente, dos nossos filhos serem atropelados na rua, entre muitas outras situações em que a ansiedade nos impele a preservar a integridade.

Portanto, a ansiedade é uma emoção reguladora da sobrevivência da espécie e como tal através da sua acção o ser humano aprende a defender-se do perigo. Esta é a função normativa da ansiedade, que, se estiver regulada(uma ansiedade normativa) desaparece rapidamente e, actua sobretudo como estimulante, ou seja, o ser humano precisa de manter níveis de ansiedade normais, para que consiga efectuar tarefas de qualquer natureza.

Quando o homem deixa de conseguir regular a ansiedade é porque ela se tornou patológica, logo fora do controlo da pessoa. Pode ter niveis de ansiedade elevados ao máximo,como pode não possuir qualquer ansiedade normal, que seja geradora de algum tipo de trabalho ou actividade. Em ambos os casos falamos de patologia.

O que é que causa a ansiedade?

As dificuldades da vida são normalmente o factor desencadeante da ansiedade patológica e nos casos agudos da angústia.

Além disso as dificuldades pessoais de inserção na sociedade, os conflitos internos do domínio afectivo, emocional e sexual podem conduzir a uma sintomatologia ansiosa.

As investigações indicam que toda a pessoa que sofre de ansiedade grave tem um profundo sentimento de desamparo psíquico oriundo de relações parentais pouco seguras ou de uma insegurança total, portanto, o que subsiste é o sentimento de desamparo e sentimentos depressivos.

Há relação entre ataque de pânico, fobias e ansiedade?

Claro que há. A fobia é um medo irracional de um objecto/animal ou situação. Os ataques de pânico são uma manifestação aguda de angústia sem causa aparente declarada, que podem paralisar um indivíduo através da sensação de asfixia ou medo de morrer. Todo este conjunto de sintomas não são mais que expressões diferentes de ansiedade.

Há alguma relação entre ansiedade e depressão?

A ansiedade faz parte do quadro clínico da depressão e está associada às alterações de humor e aos estados depressivos.

Podemos assim dizer que todas as pessoas que sofrem de depressão têm graus mais ou menos intensos de ansiedade, assim como quem sofre de ansiedade está deprimida ou em vias de deprimir.

Quais são os sintomas da ansiedade grave?
A ansiedade é acompanhada de vários sintomas físicos:
  • aceleração respiratória,
  • alteração do batimento cardíaco,
  • xixis frequentes,
  • diarreia frequente,
  • desfalecimento das pernas,
  • palidez,
  • contracção ou relaxamento do musculo facial,
  • sudação das palmas das mãos ( resposta galvânica da pele),
  • sudação de todo o corpo,
  • sensação de vertigem.
 Como é que a ansiedade evolui de normal para patológica?

Quando a pessoa já não consegue controlar as emoções e sente-se num estado de ansiedade generalizado, ou seja, em todas as situações da sua vida quotidiana. As emoções descontrolam-se, o cérebro deixa de produzir neurotransmissores e a ansiedade instala-se impedindo a pessoa de funcionar. Aparecem as mais diversas fobias, ou ataques de pânico, geradores de um desconforto enorme.

  O que é e como se manifesta a ansiedade generalizada?

A Ansiedade Generalizada manifesta-se por um estado de tensão, duma inquietude permanente, sem que algum acontecimento exterior o possa explicar. São pessoas que estão permanentemente em sobressalto e sofrem com isso. O sintoma-chave é uma ansiedade ou um medo não realista, e excessivo, face a acontecimentos futuros.

As queixas somáticas são: dores de estômago, dores de cabeça (cefaleias), diarreia, suores e transpiração excessiva, vertigens.... Esta psicopatologia torna-se um handicap porque torna a vida complicada e difícil de ser vivida, nomeadamente no quotidiano, no trabalho e nas relações pessoais.

  Estima-se que a sua prevalência seja de 3 a 7%, com uma incidência mais elevada nos filhos mais velhos e nos filhos únicos. São pessoas muito conscienciosas e que têm necessidade de serem tranquilizadas permanentemente.

A ansiedade generalizada evolui para doença: transforma-se em fobias e obsessões /compulsões.

Tratamento da ansiedade

  Sofrer de perturbação da ansiedade não é nenhuma banalidade nem uma fatalidade.

Os tratamentos para cada tipo de ansiedade variam e são estabelecidos em função da natureza do problema (fobias, obsessões, pânico, etc.) e estabelecidos em função da personalidade do sujeito que as sofre.

  Podemos encontrar ansiedades que se exprimem por outros tipos de sintomas como por exemplo, no caso de homens com ejaculação precoce, ou com impotência sexual, ou casais que há muito tempo tentam ter um filho, etc., depois de se terem realizados os despistes e exames médicos necessários, e ter-se verificado a ausência de efeitos fisiológicos, verifica-se que a ansiedade e a perturbação emocional são um factor enorme e responsável, na manutenção dessas dificuldades.

Ou ainda, pessoas que encontram no álcool, ou nas drogas, um escape para verem as suas angústias e preocupações aliviadas, e acabam por entrar num esquema traiçoeiro onde num primeiro momento as utilizam como qualquer coisa que ajuda a ficar mais calmo e que até dá prazer, mas mais tarde num esquema de dependência.

 Os exemplos podem ser vários, mas o importante a saber é que, uma grande parte das ansiedades patológicas são curáveis, outras serão susceptíveis de melhoramentos consideráveis que permitem, na generalidade, devolver às pessoas uma vida normal.

  O tratamento é combinado em algumas situações, ou seja, com terapia medicamentosa ansioliticos e antidepressivos e psicoterapia em simultâneo.

  
Saliento que só a medicação não resolve o problema é sempre necessário fazer a psicoterapia.

O objectivo da medicação é ajudar a psicoterapia.

Se este é o seu caso peça ajuda! Cuide de Si!

Maria de Jesus Candeias, Psicoterapeuta Psicanalitica Relacional

segunda-feira, 2 de abril de 2018

A importância das relações amorosas na nossa vida...



Entrevista cedida por Maria de Jesus Candeias ao  portal de saúde  MSN Saúde & Bem-Estar, Setembro de 2012.

1 - Qual o significado e a importância dos relacionamentos na nossa vida? Pode dizer-se que são a chave de tudo ou que tudo gira à sua volta?

O Ser humano é um ser, por natureza, social e relacional. Só existimos em relação. Esta necessidade  e caracteristica acompanha-nos desde o nascimento até à morte. Amar e ser amado é algo fundamental ao ser humano e ao seu desenvolvimento. O que acontece é que à medida que crescemos os nossos objectos de relação vão-se modificando. Assim, em crianças os pais representam tudo para nós, na adolescência os amigos assumem o centro das nossas vidas, e à medida que nos desenvolvemos sexualmente, a nossa atenção e o nosso investimento relacional, passa a ser na procura de uma relação amorosa íntima.
E sim, poderemos dizer, que naturalmente, os relacionamentos são algo fundamental na vida de todos nós.
A nossa herança sócio-cultural transformou as possibilidades de ser-se casal ao longo do tempo, sendo que hoje é quase inconcebível sê-lo sem um determinado grau  de vínculo amoroso, atracção sexual e apoio mútuo.

2 - Existem padrões nos nossos relacionamentos? É verdade que tendemos a repetir o tipo de relacionamentos que temos, em que mudam as caras mas o padrão é o mesmo? Porquê?

Sim, todos nós temos padrões de relacionamento, e esses padrões têm a ver com as nossas experiências relacionais que tivemos ao longo da vida, não só amorosas, mas também com a forma como vimos os nossos pais relacionarem-se, com a forma como nos relacionámos com os nossos pais, com os nossos amigos, irmãos, entre outros.
Crescer e viver em relações e ambientes hostis, adversos ou harmoniosos e prazerosos, são escolas relacionais completamente distintas, e fazem de nós seres relacionais muito distintos.
Assim, à medida que crescemos, vão mudando os protagonistas das nossas relações mas o nosso modo de nos relacionarmos, vai sendo sempre de alguma forma condicionado por aquilo que vimos ou vivemos. Porém, não nos podemos esquecer que a nossa relação também depende da forma como outro nos trata, e em função disso podemos dar o melhor ou o menos bom de nós.

3 - Quais os ingredientes ou regras fundamentais para o sucesso de um relacionamento? O que dita o sucesso dos diferentes tipos de relacionamentos que construímos ao longo da vida (profissional, familiar, amoroso, de amizade,…)?

Diria que o Amor, a confiança e o respeito, são os pilares básicos que sustentam uma relação amorosa.
Numa relação íntima saudável, o compromisso baseia-se num mútuo interesse pelo outro, em que se enaltece o verdadeiro “eu” , não se anula de modo nenhum, a individualidade. Ter diferenças de opinião, de perspectivas é óptimo. É isso que enriquece a relação. A comunicação, falar abertamente sobre essas diferenças ajuda a conquistar o respeito do outro
Porém, conseguir alcançar isto, não é de todo simples.  O sucesso relacional exige segurança, auto-confiança e uma grande maturidade emocional individual, quer na vida amorosa, quer na vida profissional. Só podemos amar alguém, se nos amarmos e respeitarmos, em primeiro lugar a nós próprios. Quando isto não acontece, facilmente nos anulamos e perdemos na relação com o outro, e estamos a meio caminho de estabelecer relações pouco saudáveis.

4 - Porque é que os relacionamentos fracassam ou não dão certo? Quais são as principais dificuldades ou erros que existem nos relacionamentos?

O amor e a intimidade desafiam os nossos maiores medos em relação ao que somos e ao que devemos ser, bem como ao que os outros são. Amando e desenvolvendo intimidade corremos riscos.  Em algumas relações, a liberdade para descobrir e deixar-se descobrir pelo outro fica condicionada pela vontade, pelo medo, pelas inseguranças, pela habilidade ou mesmo permissão do parceiro para tal. Como já referido, existem muitas vezes obediência a regras “não escritas” oriundas da família de origem, que pautam o ritmo e a profundidade dos relacionamentos de proximidade.  Regras como devem ser resolvidos os problemas, como se expressam as emoções, que expectativas se devem ter dos outros, acabam por estar presentes sendo que são muitas vezes desajustadas a esta nova relação.
Assim, poderíamos dizer, que as inseguranças individuais, as dificuldades de comunicação, a  procura dum parceiro (a) igual a si , ou que preencha todos os quesitos idealizados, é algo irreal, provocando desilusão,  desencanto,  e sem comunicação o silêncio acaba por corroer a relação.

5 - Como podemos fortalecer as nossas relações e torná-las mais saudáveis e duradouras?

Sendo verdadeiros e plenos na relação. Sem medo de sermos aquilo que somos, nem medo de sermos rejeitados. Falando abertamente sobre o que pensamos e o que nos preocupa. A honestidade, a espontaneidade, a vulnerabilidade, a confiança e a aceitação são ingredientes essenciais para o sucesso da relação. Podem suscitar por vezes mágoas e vulnerabilidades, mas esse é o caminho para a maturidade e para a intimidade conjugal,pois permitem a reciprocidade, a alegria e a ternura.

6 - Todas as pessoas possuem a capacidade de iniciar, construir e manter relacionamentos longos e saudáveis ou só algumas é que o conseguem fazer?

Manter uma relação diria que é mesmo uma arte, e uns têm mais competências relacionais do que outros. De referir porém, que não há relações perfeitas e que mesmo as relações saudáveis têm os seus momentos de crise.

7 - O que devem fazer aqueles que não têm grandes capacidades de relacionamento? A que princípios ou estratégias é que podem recorrer para se tornarem mais hábeis no trato com as outras pessoas?

As competências relacionais é algo que podemos desenvolver, em qualquer fase da nossa vida, com ajuda especializada. A Psicologia, e a Terapia de casal, são uma ferramenta muito útil, no desenvolvimento destas competências.

8 – Qual a melhor forma de lidar com o fim de um relacionamento?

A melhor forma, é enfrentar o fim com realismo e dignidade, e aceitá-lo. Uma relação só é possível quando ambos querem e a desejam. Não se consegue construir nem reparar uma relação quando só um quer permanecer nela.
É importante pensarmos que quando uma relação termina, o que está em causa, não é o valor individual de cada uma das partes, não é uma guerra em que há vencedores e vencidos. É simplesmente um desencontro. È importante não dramatizar, não arrastar   a dor. È importante ter coragem para por um ponto final e não se deixar arrastar no sofrimento. Uma relação só faz sentido quando nos dá mais coisas positivas do que negativas. Quando a balança entra em défice é preciso falar sobre o que esta a acontecer, e avaliar se vale a pena continuar ou não. 

Nestes casos, a  Psicoterapia ou a Terapia de Casal é extremamente útil e eficaz ,e ajuda o individuo ou o casal, a analisar com alguma serenidade o que está a acontecer e a ponderar os vários cenários possíveis.

Entrevista cedida por Maria de Jesus Candeias ao  portal de saúde  MSN Saúde & Bem-Estar, Setembro de 2012.

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